segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Nostalgia, A Música e o Mundo Líquido



Você já se sentiu nostálgico?


Não preciso ser capaz de ler mentes para dizer que qualquer um já se sentiu nostálgico pelo menos uma vez na vida. É algo natural e inerente aos seres humanos sentirem saudades do tempo que passou, já que somos criaturas findas e breves e sabemos que, por mais ótimos que tenham sido aqueles momentos, ainda assim, não voltarão e isso nos deixa com um misto de tristeza e felicidade, ao qual chamamos de nostalgia.


A algum tempo atrás estava sozinho, à noite, em meu quarto, com ninguém mais em casa e todas as luzes, exceto a do cômodo onde estava, apagadas, estudando enquanto ouvia músicas pelo Youtube e derrepente a reprodução automática me levou a uma música nova que me causou profunda nostalgia. Assim que comecei a prestar atenção na música quase unicamente instrumental que soava em meus fones, me vi deixando o livro ao lado e recostando em meu travesseiro, imergindo em mundo etéreo de memórias com um sentimento de bem estar, ao mesmo tempo que uma melancolia por que nunca mais poderia experienciar fisicamente aqueles eventos.


No dia seguinte, indo para a escola, comecei a me perguntar porque me sentira daquele jeito na noite anterior e por que aquela música, até então desconhecida, me causou aqueles sentimentos. Por esse motivo então decidi fazer esse post reunindo aquilo que pesquisei e minhas opiniões sobre esse assunto tão presente, mas tão enigmático em nossas vidas: a nostalgia.


O que, afinal, é a nostalgia?



Bom, para entender o por quê da música causar a nostalgia, primeiro é necessário entender o que é nostalgia.


O Dicionário Online de Português define nostalgia como o seguinte:

1. Tristeza causada pela saudade de sua terra ou de sua pátria; melancolia.

2. Saudade do passado, de um lugar etc.

3. Disfunções comportamentais causadas pela separação ou isolamento (físico) do país natal, pela ausência da família e pela vontade exacerbada de regressar à pátria.

4. Saudade de alguma coisa, de uma circunstância já passada ou de uma condição que (uma pessoa) deixou de possuir.

5. Condição melancólica causada pelo anseio de ter os sonhos realizados.

6. Condição daquele que é triste sem motivos explícitos.

A etimologia da palavra vem do grego nostos (Volta para casa) + algia(dor). Johannes Hofer, um médico italiano que atuava na Suíça usou em 1688 a palavra Heimweh (saudades de casa) para descrever a melancolia de mercenários suíços em serviço longe de casa. Esta seria a origem da palavra, a qual foi resgatada e traduzida do alemão pelos romantistas, quase dois séculos depois como Nostalgia.

As épocas em que a palavra surgiu e foi, depois usada, nos permitem inferir que essa provém de seu contexto histórico (1688 se situa no começo do pensamento iluminista), e, respondendo à constantes estímulos culturais, acaba por formar novos conceitos nas mentes das pessoas, consequentemente alterando seu significado através dos anos.

Justamente por isso, em seu livro "O Futuro da Nostalgia", Svetlana Boym, distingue dois tipos de nostalgia: a "nostalgia retroativa" que almeja por retornar a um lugar do passado e a "nostalgia reflexiva" a qual é basicamente a reflexão e a saudade de algo irreparável.

A nostalgia seria então uma espécie de sentimento de perda, de estar longe de um lar, que não é necessariamente um lar físico como uma casa ou uma cidade, mas sim um estado mental que represente um lar. Uma vez que conceito de lar é, fundamentalmente o sentimento de conforto, bem estar, de estar em uma experiência feliz perfeita para você.

Para deixar mais claro darei um exemplo: digamos que você tenha 7 anos, que está de férias e por isso visitando seus amados parentes no interior. Na tarde do penúltimo dia na casa desses parentes você, seus avós, todos os seus primos, primas, tios, tias, e amigos da família vão para as margens do rio fazer um grande almoço para a todos e ali ficam até o entardecer. Você, seus primos e todas as outras crianças ali presentes comem, nadam, brincam de pega-pega, esconde-esconde e rolam na grama a tarde inteira, se divertindo como nunca enquanto o sol vai pouco a pouco procurando alento no horizonte, mas mesmo assim você sente como se aquela fosse aquela fosse a melhor tarde da sua vida e sente como se ela nunca fosse acabar.

Naquele momento você (o personagem) ficou tão alegre de estar ali vivendo aquilo na companhia de tantas pessoas amadas que acabou sentindo, não apenas alegria, mas também "lar", o sentimento supremo de pertencimento e alegria, que ficou automaticamente cravado em sua mente a partir daquele momento e que você sentiria muitas saudades no futuro justamente por esse sentimento maravilhoso que você se lembraria de ter tido.

Não é necessário, no entanto, que a memória seja algo tão extravagante como isso. A memória pode ser desde uma tarde de filmes com a família em um dia chuvoso até uma viagem de sobremaneira proveitosa. O importante é que se crie, em sua mente, o sentimento de "lar".


Por que nos sentimos nostálgicos?


Pesquisas feitas por uma equipe de psicologistas da State University na Dakota do Norte mostraram que as memórias felizes que nos causam nostalgia geralmente inspiram sentimentos de felicidade, pertencimento, auto-consideração e significado na vida.

Nestas mesmas pesquisas, quando foi requisitado que descrevessem alguma situação que causou neles o sentimento de nostalgia, os voluntários da experiência realizada, majoritariamente descreveram situações onde elas tinham pensamentos negativos e nebulosos em suas mentes e/ou estavam sós até que a nostalgia os invadiu. Em outro experimento foram dados aos participantes três notícias diferentes que tinham um conteúdo positivo, neutro ou triste. O que se observou foi que a notícia sobre um desastre provocado por um tsunami causou mais sentimentos nostálgicos do que os artigos sobre o espaço sideral ou sobre o nascimento de um urso polar em um zoológico.

Isso leva à conclusão de que estados de baixa autoestima, tristeza ou de desespero acerca do significado da vida tendem a levar mais a nostalgia do que qualquer outra coisa e há uma razão bem simples para isso. Nas palavras de um dos pesquisadores, Clay Routledge, em face da aflição existencial, "A pessoas não vão simplesmente retomar memórias aleatórias delas dirigindo para o trabalho ou pagando contas. Elas pensam em tempos especiais, pensam nos tempos que passaram com amigos próximos ou entes queridos. Talvez uma reunião familiar ou talvez uma ocasião importante como seu casamento ou formatura."

A nostalgia então seria algo que o nosso cérebro usa a fim de nos aliviar dos momentos em que nos sentimos tristes, com medo ou estressados.






(Cena de Shelter, o videoclipe mais depressivo que já tive o prazer de assistir) 



Usando à mim mesmo como exemplo, naquele dia em específico eu estava estudando para uma difícil que teria no dia seguinte, numa hora da noite em que eu já deveria ter ido dormir porque, do contrário eu sabia que ficaria muito cansado para conseguir o melhor desempenho na prova. E como se já não bastasse tudo isso, havia a pilha de tarefas, projetos e "pepinos" na minha agenda parados, esperando para ser resolvidos. Com tudo isso passando pela minha mente naquela noite eu não sei quantas vezes eu me vi lendo o livro com um profundo sentimento de desespero e ansiosidade em mim. Assim eu estava até que aquela singular e relaxante música se fez ouvir no meu cérebro e do nada desencadeou uma série de memórias que, ao final de alguns minutos deitado, imerso naquele mundo etéreo de memórias alegres, me deixaram mais feliz e mais calmo ao ponto de eu conseguir voltar a estudar e conseguir ir surpreendentemente bem na prova do dia posterior.

É, portanto, nesses breves e passageiros momentos de reflexão, tristeza e solidão, em que a vida cotidiana frenética que vivemos parece mais nos afligir que somos atingidos por memórias do "lar" que nos dão forças para continuar nossa caminhada.



O que a música tem a ver com tudo isso?




Como o visto no meu exemplo, as memórias e a subsequente nostalgia não vieram do nada. Na maioria das vezes o nosso cérebro precisa de uma espécie de "gatilho" para desencadear isso tudo. Esse gatilho pode ser um cheiro, a vista de um lugar já visitado, uma comida que sua avó fazia; mas, como já devem saber, vou me focar em um gatilho específico aqui: A música.

Há muito já se sabe do poder que a música tem para mexer com as emoções humanas então para evocar a nostalgia, um sentimento humano, não deveria ser diferente não é?

Mas afinal, por que algumas músicas são capazes de causar nostalgia e outras não?

Bom, para esclarecer isso vou separar músicas em dois grupos: Músicas do Nosso Passado e Músicas Reflexivas.





As Músicas do Passado obviamente causam nostalgia pelo fato de automaticamente nos remeterem à época que as ouvíamos, geralmente a época da infância ou da adolescência.

Já as Músicas Reflexivas seriam, não necessariamente músicas com uma letra reflexiva, mas músicas calmas (geralmente instrumentais) nas quais vamos imergindo gradualmente e eventualmente, ao imergimos nelas, acabamos imergindo em nós mesmos, levando à uma momento de reflexão que pode gerar a nostalgia.


As nostalgia em alta nos dias de hoje



Terminando de pensar nos tópicos acima, comecei a ter um outro questionamento: Por que a nostalgia está tão em alta hoje?

A nostalgia, mais ou menos já no começo dos anos 2000, foi um sentimento que começou a crescer entre as pessoas. A qualidade daquilo que se fazia, principalmente no cinema e na TV dos anos 70, 80 e 90, foi algo que ficou na mente da pessoas que nasceram nessas décadas e, vendo essa oportunidade, a mídia e o mercado começaram a alimentar essa espécie de saudosismo com produtos que remetiam à essas épocas ou os próprios produtos dessas épocas, às vezes com roupagens novas(continuações, reboots, spin-offs), e às vezes não (reprises, relançamentos, maratonas).





(Alguns exemplos de obras antigas voltando à tona, geralmente pelo puro prazer da nostalgia) 



(Obs: Aqui usarei mais o exemplo das produções audiovisuais porque é onde essa tendência é mais visível, mas quem nunca ouviu algum adulto dizer algo como "bom mesmo eram as músicas da minha época" ou "na minha época as brincadeiras eram muito mais divertidas"?)

Pensando em qual seria a gênese desse sentimento de nostalgia tão exacerbado , eu primeiramente pensei que era só natural as pessoas lembrarem com saudades de coisas tão boas como "Pokémon" por exemplo.Mas, depois de fazer a pesquisa que me permitiu expor os pontos anteriores descobri uma resolução um pouco mais profunda tanto do ponto de vista sociológico como psicológico.

Vamos à ela então.

Já é sabido que a depressão é uma doença que vem crescido vertiginosamente no mundo pós moderno. Se procurar qualquer coisa relacionado a isso no Google como "índices de depressão", achar-se-á facilmente notícias como estas:













Não vou entrar muito nos méritos do porquê dessa explosão da depressão que o mundo tem observado, já que não sou psicólogo e isso, por si só, já dá outro post bem grande. Me limito, portanto a falar que a vida das pessoas tem-se tornado uma vida cada vez mais solitária, vazia e corrida. As pessoas tem vivido cada vez mais para suas redes sociais, seus trabalhos e seus produtos.

Porém, esse mundo em qual vivemos (o qual o grande filósofo Bauman chama de "Mundo Líquido" ) e esse pensamento superficial que o rege não é capaz de sustentar um indivíduo quando este se vê face à face com o inevitável problema da existência humana.

O que se faz então?


Obviamente apela-se para um dos "remédios da Tristeza" : a Nostalgia.

Nós então a usamos, abusamos, anunciamos, vendemos, comercializamos, tornando-a, não mais apenas sentimento humano, mas também produto.


A Nostalgia é um produto.

O produto que as pessoas vem usando a fim de evitar, o máximo possível, pensar em seus problemas existenciais. E esse uso exacerbado só gera um ciclo vicioso, - como uma espécie de dependência - onde a pessoa vai se tornando cada vez mais superficial para esquecer das questões que a afligem, automaticamente fazendo com que ela precise de "doses de nostalgia" cada vez maiores para ludibriar sua consciência.



Conclusão








Longe de mim dizer que a nostalgia é, então, uma coisa ruim, nada disso. A nostalgia é um sentimento único e maravilhoso de introspecção pessoal no nosso passado que deixa nossa essa nossa vida muitas vezes amarga, um pouco mais doce. Porém, quando usada e comercializada de forma abusiva como faz o nosso atual mercado , ela revela um quadro grave de fraqueza e superficialidade psicológica.


O que fazer então?


Assim como tudo na vida, devemos prezar pela moderação. Não faz mal nenhum mergulhar no sentimento nostálgico quando se está triste ou abatido de vez enquando. Mas, se fizer isso sempre não se está fazendo nada mais do que fugir dos problemas que lhe perseguem e devemos valorizar os poucos e bons momentos de pura nostalgia que temos como momentos únicos e pessoais a serem guardados e aproveitados.



Para finalizar, colocarei aqui a baixo algumas coisas que me despertam nostalgia e talvez possam despertar em vocês também:


Filmes:

-A Viagem de Chihiro : O melhor filme que já vi na vida. A cena do trem causa um sentimento nostalgico muito grande, até mesmo para quem não havia assistido o filme antes.

-Peanuts O Filme: Outro filme adorável que passa todo o espírito da tirinhas e dos desenhos encantadores do Snoopy.


Livro:

-Minha Vida de Menina: Num Brasil pós-abolicionista, uma menina do interior de Minas Gerais conta sua divertida pré adolescência e adolescência. Ao imaginar alguns dos causos você se vê criança de novo, brincando junto com a protagonista de descer no barranco, brincar no rio e de tantas outras coisas que são descritas no livro. Simplesmente nostálgico. 


Músicas:

Músicas que me despertaram a nostalgia em algum momento porque são do meu passado e/ou me deixam calmo para refletir e chegar a me sentir nostálgico









segunda-feira, 12 de junho de 2017

Naruto: uma obra inspiradora

Recentemente eu estava navegando no Facebook negligenciando minhas obrigações (quem nunca?) e acabei me deparando com a seguinte imagem:


(da pág Nerds e Otakus- NEO)

Imediatamente pensei: "Fácil, ele gritaria, falaria um monte de frases terminadas com 'dattebayo!', lutaria com alguém, provavelmente faria um discurso motivacional e depois sairia correndo atrás do Sasuke denovo."
Me diverti com esse pensamento já que um dos meus maiores prazeres como otaku é zuar com Naruto e sua fanbase (mesmo gostando da obra)
Mas alguns minutos depois, pensando sobre isso, surgiu em mim uma pergunta: essa forma de pensar estaria tão errada assim?

Não me levem a mal com essa última pergunta. Não estou falando que deveríamos basear nossas decisões de vida na impressão que temos de um personagem de anime. O que estou querendo levantar é o que esta por trás do modo de pensar do Naruto no contexto do mundo em que ele vive e se isso seria a postura certa a se tomar traduzindo esse pensamento para o mundo real.

Incompreensível

Desde o começo do anime Naruto nos é apresentado como um garoto discriminado mas que, justamente por isso, quer mostrar as pessoas que o desprezam como ele é bom, como ele é uma pessoa boa e além disso como ele é tão incrível que seria até capaz de governar essas pessoas.

No início, principalmente no que se refere a séria clássica, essa postura positiva do Naruto é comovente. Somos cativados pelo modo em que ele, gradativamente começa a criar laços de amizade com quem ele evolui e cresce assim como também ajuda esses amigos a crescer. O problema é que depois de um tempo - e isso começa a partir do Shippuden -, esse comportamento do protagonista começa a ficar extremamente irritante por que ele passa a ser praticamente todo direcionado para salvar o Sasuke-kun o que acaba virando meio que o sentido da vida do Naruto.

Se o Sasuke fosse um personagem bom (e não digo bom no sentido de bonzinho mas bom no sentido de bem construído) e profundo nós fãs conseguiríamos tolerar com um pouco mais de facilidade essa obsessão do Naruto pelo Sasuke mas ele é um personagem do anime cujo comportamento mais se assemelha ao de uma criança birrenta, mesmo com motivações plausíveis, o que o torna o verdadeiro exemplo de como ser um ser humano de bosta, levando uma parte considerável dos fãs de Naruto a não gostarem dele (e outra à amá-lo. Fazer o que né?) e consequentemente não compreenderem como o Naruto consegue, tão insistentemente, tentar salvar uma pessoa horrível como o Sasuke.

Mas sim, Masaki Kishimoto sabe que seu personagem precisaria de fortíssimas motivações para tal e, na falta de um, nos dá dois motivos pelos quais o personagem continua sua jornada em busca de Sasuke: o primeiro seria o de que Naruto não podia abandonar seu primeiro e único melhor amigo, por causa dos fortes laços por eles desenvolvidos durante lutas e missões e o segundo (na minha opinião o melhor criado pelo autor) seria o de que se Naruto não conseguiu ser forte o bastante nem para salvar seu melhor amigo da escuridão, como ele poderia ser forte o bastante para governar uma aldeia? 

E mesmo, mesmo, meeeeeeeesmo com essas motivações muito bem feitas que aposto que devem ter tirado umas boas horas do Kishimoto sensei, ainda não parece suficientemente crível o fato de tamanha insistência por parte do nosso personagem principal.

Eu também, até então, tinha essa mesma visão de que o modo de fazer as coisas do Naruto era simplesmente irreal, irracional, otimista e infantil demais, mas quando parei para analisar seu comportamento penetrando fundo em seu pensamento e em sua lógica de pensar assim como a lógica do mundo que o rodeia percebi que ele não era tão insano assim como eu pensava.

Um Mundo Caótico



Sempre me impressionei com a habilidade excepcional do Kishimoto-sensei em retratar a desgraça humana em um mangá mainstream, de forma a abordar temas pesados de maneira a conseguir dosar muito bem a proporção entre profundidade e conteúdo interessante pro público e ele faz isso nos dando as perspectivas dos personagens e mostrando suas feridas emocionais e físicas de um jeito que, ao final da história você não consegue não sentir certa empatia pelo personagem e um ódio daquele mundo e das pessoas de bosta que vivem nele (aquele desgraçado que negou o pão pro Nagato que o diga).

E até mesmo os roteiristas dos fillers de Naruto, considerados por muitos como os mais chatos e enrolados dos animes também conseguem reproduzir muito bem essa habilidade da obra original de representar o sofrimento e a desgraça, com fillers que contém histórias ótimas à exemplo do que contou a história da Karin, uma personagem que comecei a respeitar muito mais a partir daquele ep e também aquele arco filler do clã com os olhos amaldiçoados que, mesmo não gostando de vários fillers de Naruto, tive que dar o braço a torcer: Que história triste cara!

(do lado esquerdo Chino do clã Chinoike e à direita Karin)

Aí você leitor talvez me pergunte: Tá cara, mas como o fato do Kishimoto saber fazer histórias tristes muito bem influencia no modo como o Naruto pensa?

E eu te respondo: influencia em tudo!

Pense assim: se fossem só uma ou suas histórias tristes tudo bem, mas tanto o anime como o mangá estão cheios de personagens com histórias, no mínimo, lamentáveis e quando você junta todas elas e forma um contexto, algo, uma razão por que todas essas coisas horríveis acontecem com as pessoas você chega à uma conclusão: Viver no Mundo Ninja é uma Bosta.

Guerras, conflitos, terrorismo, corrupção, poderes quase místicos que ameaçam constantemente a vida das pessoas e o medo ainda maior de poder ter sua vila destruída por um monstro gigantesco com um determinado número de caudas. Todos esses fatores cooperam para fazer do Mundo Ninja um mundo quase tão ruim quanto o nosso só que com o agravante do chakra e das bestas de cauda só pra potencializar tudo isso.

Mas de que forma exatamente isso se relaciona com o modo com que o Naruto toma suas decisões e enxerga o mundo?

Respondo-te: nossa personalidade e modo de ver as coisas são coisas muito influenciadas pelo contexto em que vivemos. Imagine que você é uma pessoa sonhadora, energética, e ativa só que o mundo ao seu redor é cruel, arcaico, cheio de guerras, desesperança e que se você tentar perseguir seus sonhos você vai, provavelmente, morrer ou acabar pior do que começou, por que é isso que aquele mundo faz. Te restam duas escolhas: desistir e se contentar com sua vida severina ou lutar brava e incansavelmente por seu lugar ao Sol e por um mundo melhor para todos.

Naruto é alguém que escolheu a segunda opção e, como alguém que luta por isso, ele sente que se ele parar, mesmo que por um instante de lutar, o mundo o derrubará por completo e ele perderá tudo o que construiu e não conseguirá se reerguer, por isso, para ele, desistir não significa apenas abandonar um amigo ou um título, mas abandonar a si próprio. E quando ele vê seu melhor amigo se deixar guiar pelo sofrimento e a dor e, pior do que isso, se tornar um dos agentes causadores da desgraça naquele mundo, ele simplesmente não pode aceitar, porque ele tem que provar para o Sasuke, para o mundo e acima de tudo, para si mesmo que a sua luta não é insana, não é vã, que não é loucura pensar em um mundo com menos dor, com menos sofrimento, portanto se ele abandonasse Sasuke, ele estaria admitindo que aquele mundo estava certo e que ele era o real insano em buscar um mundo diferente daquele.

E é essa luta interminável por mudança, essa revolução realmente que move Naruto. E isso é tão evidente que, quando este vira Hokage percebe-se nitidamente seu cansaço não só físico como mental. Lutar uma luta quase eterna foi algo colossalmente extenuante para o Naruto mas que ele não se arrepende pois as pessoas de sua vila e do mundo agora vivem melhor.

Por isso a mensagem que Kishimoto tenta trazer com toda a sua narrativa é, além da amizade, da honra e da bondade e que o mundo é um lugar cruel e violento mas que a luta contra ele vale a pena mesmo com todos os ardores da batalha ainda assim vale à pena.


Além das fronteiras da arte

Ademais, sinto importante também salientar que essa mensagem, essa temática esperançosa e otimista sobre o mundo que julgo até bem recorrente em várias obras nipônicas são reflexos diretos da influência da sociedade japonesa sobre as pessoas.

"A vida adulta, diferente do ocidente, não é vista como um período de liberdade e emancipação pessoal, muito pelo contrário, a fase é vista como décadas de claustro que limita as potências individuais, apaga os sonhos e força o indivíduo a aceitar seu destino miserável." -texto retirado do site do Otakismo (http://otakismo1.rssing.com/chan-6238764/all_p1.html) que recomendo muito se quiserem ter uma dimensão melhor do que é a sociedade japonesa.

Não vou explicar aqui a dimensão da dureza que é ser adulto no Japão mas saiba que não é fácil e é para isso que obras como Naruto e One Piece existem. Para que o trabalhador comum, quando chegar em casa do escritório, depois de horas de trabalho mecânico e cansativo possa se sentir um pouco melhor e mais esperançoso quanto à sua vida medíocre e mesmo assim a taxa de suicídios no Japão ainda é uma das mais altas do mundo pra vcs verem como são profundas as raízes do otimismo artísticos japonês.



Conclusão 

Sumarizando, quando digo que às vezes deveríamos sim agir como Naruto agiria, quero dizer que não devemos nos abalar com as dificuldades, que devemos encarar o mundo como ele é de frente e ver quem é mais forte por mais que pareça doloroso, por mais que pareça cansativo tudo por nossos sonhos e esperanças e realmente espero que, no futuro, mais obras tão boas e profundas (de forma moderada) quanto Naruto por que mesmo zuando e satirizando os escorregões da obra (Pedra vs Obito) ainda assim são obras como essa que nos inspiram a ser mais do que aquilo que o mundo nos diz para ser, ser melhores, vencer o mundo, coisa que, na correria do dia a dia, nos esquecemos lamentavelmente.


Obrigado por terem lido até aqui.
Valeu mesmo.


Aqui estão algumas leituras adicionais se quiserem saber mais sobre a sociedade japonesa e suas expressões artísticas

http://otakismo1.rssing.com/browser.php?indx=6238764&item=1

http://www.divisaoparalela.com.br/2016/02/one-piece-e-o-fanatismo-dos-shounens.html?m=1