segunda-feira, 12 de junho de 2017

Naruto: uma obra inspiradora

Recentemente eu estava navegando no Facebook negligenciando minhas obrigações (quem nunca?) e acabei me deparando com a seguinte imagem:


(da pág Nerds e Otakus- NEO)

Imediatamente pensei: "Fácil, ele gritaria, falaria um monte de frases terminadas com 'dattebayo!', lutaria com alguém, provavelmente faria um discurso motivacional e depois sairia correndo atrás do Sasuke denovo."
Me diverti com esse pensamento já que um dos meus maiores prazeres como otaku é zuar com Naruto e sua fanbase (mesmo gostando da obra)
Mas alguns minutos depois, pensando sobre isso, surgiu em mim uma pergunta: essa forma de pensar estaria tão errada assim?

Não me levem a mal com essa última pergunta. Não estou falando que deveríamos basear nossas decisões de vida na impressão que temos de um personagem de anime. O que estou querendo levantar é o que esta por trás do modo de pensar do Naruto no contexto do mundo em que ele vive e se isso seria a postura certa a se tomar traduzindo esse pensamento para o mundo real.

Incompreensível

Desde o começo do anime Naruto nos é apresentado como um garoto discriminado mas que, justamente por isso, quer mostrar as pessoas que o desprezam como ele é bom, como ele é uma pessoa boa e além disso como ele é tão incrível que seria até capaz de governar essas pessoas.

No início, principalmente no que se refere a séria clássica, essa postura positiva do Naruto é comovente. Somos cativados pelo modo em que ele, gradativamente começa a criar laços de amizade com quem ele evolui e cresce assim como também ajuda esses amigos a crescer. O problema é que depois de um tempo - e isso começa a partir do Shippuden -, esse comportamento do protagonista começa a ficar extremamente irritante por que ele passa a ser praticamente todo direcionado para salvar o Sasuke-kun o que acaba virando meio que o sentido da vida do Naruto.

Se o Sasuke fosse um personagem bom (e não digo bom no sentido de bonzinho mas bom no sentido de bem construído) e profundo nós fãs conseguiríamos tolerar com um pouco mais de facilidade essa obsessão do Naruto pelo Sasuke mas ele é um personagem do anime cujo comportamento mais se assemelha ao de uma criança birrenta, mesmo com motivações plausíveis, o que o torna o verdadeiro exemplo de como ser um ser humano de bosta, levando uma parte considerável dos fãs de Naruto a não gostarem dele (e outra à amá-lo. Fazer o que né?) e consequentemente não compreenderem como o Naruto consegue, tão insistentemente, tentar salvar uma pessoa horrível como o Sasuke.

Mas sim, Masaki Kishimoto sabe que seu personagem precisaria de fortíssimas motivações para tal e, na falta de um, nos dá dois motivos pelos quais o personagem continua sua jornada em busca de Sasuke: o primeiro seria o de que Naruto não podia abandonar seu primeiro e único melhor amigo, por causa dos fortes laços por eles desenvolvidos durante lutas e missões e o segundo (na minha opinião o melhor criado pelo autor) seria o de que se Naruto não conseguiu ser forte o bastante nem para salvar seu melhor amigo da escuridão, como ele poderia ser forte o bastante para governar uma aldeia? 

E mesmo, mesmo, meeeeeeeesmo com essas motivações muito bem feitas que aposto que devem ter tirado umas boas horas do Kishimoto sensei, ainda não parece suficientemente crível o fato de tamanha insistência por parte do nosso personagem principal.

Eu também, até então, tinha essa mesma visão de que o modo de fazer as coisas do Naruto era simplesmente irreal, irracional, otimista e infantil demais, mas quando parei para analisar seu comportamento penetrando fundo em seu pensamento e em sua lógica de pensar assim como a lógica do mundo que o rodeia percebi que ele não era tão insano assim como eu pensava.

Um Mundo Caótico



Sempre me impressionei com a habilidade excepcional do Kishimoto-sensei em retratar a desgraça humana em um mangá mainstream, de forma a abordar temas pesados de maneira a conseguir dosar muito bem a proporção entre profundidade e conteúdo interessante pro público e ele faz isso nos dando as perspectivas dos personagens e mostrando suas feridas emocionais e físicas de um jeito que, ao final da história você não consegue não sentir certa empatia pelo personagem e um ódio daquele mundo e das pessoas de bosta que vivem nele (aquele desgraçado que negou o pão pro Nagato que o diga).

E até mesmo os roteiristas dos fillers de Naruto, considerados por muitos como os mais chatos e enrolados dos animes também conseguem reproduzir muito bem essa habilidade da obra original de representar o sofrimento e a desgraça, com fillers que contém histórias ótimas à exemplo do que contou a história da Karin, uma personagem que comecei a respeitar muito mais a partir daquele ep e também aquele arco filler do clã com os olhos amaldiçoados que, mesmo não gostando de vários fillers de Naruto, tive que dar o braço a torcer: Que história triste cara!

(do lado esquerdo Chino do clã Chinoike e à direita Karin)

Aí você leitor talvez me pergunte: Tá cara, mas como o fato do Kishimoto saber fazer histórias tristes muito bem influencia no modo como o Naruto pensa?

E eu te respondo: influencia em tudo!

Pense assim: se fossem só uma ou suas histórias tristes tudo bem, mas tanto o anime como o mangá estão cheios de personagens com histórias, no mínimo, lamentáveis e quando você junta todas elas e forma um contexto, algo, uma razão por que todas essas coisas horríveis acontecem com as pessoas você chega à uma conclusão: Viver no Mundo Ninja é uma Bosta.

Guerras, conflitos, terrorismo, corrupção, poderes quase místicos que ameaçam constantemente a vida das pessoas e o medo ainda maior de poder ter sua vila destruída por um monstro gigantesco com um determinado número de caudas. Todos esses fatores cooperam para fazer do Mundo Ninja um mundo quase tão ruim quanto o nosso só que com o agravante do chakra e das bestas de cauda só pra potencializar tudo isso.

Mas de que forma exatamente isso se relaciona com o modo com que o Naruto toma suas decisões e enxerga o mundo?

Respondo-te: nossa personalidade e modo de ver as coisas são coisas muito influenciadas pelo contexto em que vivemos. Imagine que você é uma pessoa sonhadora, energética, e ativa só que o mundo ao seu redor é cruel, arcaico, cheio de guerras, desesperança e que se você tentar perseguir seus sonhos você vai, provavelmente, morrer ou acabar pior do que começou, por que é isso que aquele mundo faz. Te restam duas escolhas: desistir e se contentar com sua vida severina ou lutar brava e incansavelmente por seu lugar ao Sol e por um mundo melhor para todos.

Naruto é alguém que escolheu a segunda opção e, como alguém que luta por isso, ele sente que se ele parar, mesmo que por um instante de lutar, o mundo o derrubará por completo e ele perderá tudo o que construiu e não conseguirá se reerguer, por isso, para ele, desistir não significa apenas abandonar um amigo ou um título, mas abandonar a si próprio. E quando ele vê seu melhor amigo se deixar guiar pelo sofrimento e a dor e, pior do que isso, se tornar um dos agentes causadores da desgraça naquele mundo, ele simplesmente não pode aceitar, porque ele tem que provar para o Sasuke, para o mundo e acima de tudo, para si mesmo que a sua luta não é insana, não é vã, que não é loucura pensar em um mundo com menos dor, com menos sofrimento, portanto se ele abandonasse Sasuke, ele estaria admitindo que aquele mundo estava certo e que ele era o real insano em buscar um mundo diferente daquele.

E é essa luta interminável por mudança, essa revolução realmente que move Naruto. E isso é tão evidente que, quando este vira Hokage percebe-se nitidamente seu cansaço não só físico como mental. Lutar uma luta quase eterna foi algo colossalmente extenuante para o Naruto mas que ele não se arrepende pois as pessoas de sua vila e do mundo agora vivem melhor.

Por isso a mensagem que Kishimoto tenta trazer com toda a sua narrativa é, além da amizade, da honra e da bondade e que o mundo é um lugar cruel e violento mas que a luta contra ele vale a pena mesmo com todos os ardores da batalha ainda assim vale à pena.


Além das fronteiras da arte

Ademais, sinto importante também salientar que essa mensagem, essa temática esperançosa e otimista sobre o mundo que julgo até bem recorrente em várias obras nipônicas são reflexos diretos da influência da sociedade japonesa sobre as pessoas.

"A vida adulta, diferente do ocidente, não é vista como um período de liberdade e emancipação pessoal, muito pelo contrário, a fase é vista como décadas de claustro que limita as potências individuais, apaga os sonhos e força o indivíduo a aceitar seu destino miserável." -texto retirado do site do Otakismo (http://otakismo1.rssing.com/chan-6238764/all_p1.html) que recomendo muito se quiserem ter uma dimensão melhor do que é a sociedade japonesa.

Não vou explicar aqui a dimensão da dureza que é ser adulto no Japão mas saiba que não é fácil e é para isso que obras como Naruto e One Piece existem. Para que o trabalhador comum, quando chegar em casa do escritório, depois de horas de trabalho mecânico e cansativo possa se sentir um pouco melhor e mais esperançoso quanto à sua vida medíocre e mesmo assim a taxa de suicídios no Japão ainda é uma das mais altas do mundo pra vcs verem como são profundas as raízes do otimismo artísticos japonês.



Conclusão 

Sumarizando, quando digo que às vezes deveríamos sim agir como Naruto agiria, quero dizer que não devemos nos abalar com as dificuldades, que devemos encarar o mundo como ele é de frente e ver quem é mais forte por mais que pareça doloroso, por mais que pareça cansativo tudo por nossos sonhos e esperanças e realmente espero que, no futuro, mais obras tão boas e profundas (de forma moderada) quanto Naruto por que mesmo zuando e satirizando os escorregões da obra (Pedra vs Obito) ainda assim são obras como essa que nos inspiram a ser mais do que aquilo que o mundo nos diz para ser, ser melhores, vencer o mundo, coisa que, na correria do dia a dia, nos esquecemos lamentavelmente.


Obrigado por terem lido até aqui.
Valeu mesmo.


Aqui estão algumas leituras adicionais se quiserem saber mais sobre a sociedade japonesa e suas expressões artísticas

http://otakismo1.rssing.com/browser.php?indx=6238764&item=1

http://www.divisaoparalela.com.br/2016/02/one-piece-e-o-fanatismo-dos-shounens.html?m=1

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