Recentemente
eu estava navegando no Facebook negligenciando minhas obrigações (quem nunca?)
e acabei me deparando com a seguinte imagem:
(da pág Nerds e Otakus- NEO)
Imediatamente
pensei: "Fácil, ele gritaria, falaria um monte de frases terminadas com
'dattebayo!', lutaria com alguém, provavelmente faria um discurso motivacional
e depois sairia correndo atrás do Sasuke denovo."
Me
diverti com esse pensamento já que um dos meus maiores prazeres como otaku é
zuar com Naruto e sua fanbase (mesmo gostando da obra)
Mas
alguns minutos depois, pensando sobre isso, surgiu em mim uma pergunta: essa
forma de pensar estaria tão errada assim?
Não
me levem a mal com essa última pergunta. Não estou falando que deveríamos
basear nossas decisões de vida na impressão que temos de um personagem de
anime. O que estou querendo levantar é o que esta por trás do modo de pensar do
Naruto no contexto do mundo em que ele vive e se isso seria a postura certa a
se tomar traduzindo esse pensamento para o mundo real.
Incompreensível
Desde
o começo do anime Naruto nos é apresentado como um garoto discriminado mas que,
justamente por isso, quer mostrar as pessoas que o desprezam como ele é bom, como
ele é uma pessoa boa e além disso como ele é tão incrível que seria até capaz
de governar essas pessoas.
No
início, principalmente no que se refere a séria clássica, essa postura positiva
do Naruto é comovente. Somos cativados pelo modo em que ele, gradativamente
começa a criar laços de amizade com quem ele evolui e cresce assim como também
ajuda esses amigos a crescer. O problema é que depois de um tempo - e isso
começa a partir do Shippuden -, esse comportamento do protagonista começa a
ficar extremamente irritante por que ele passa a ser praticamente todo
direcionado para salvar o Sasuke-kun o que
acaba virando meio que o sentido da vida do Naruto.
Se
o Sasuke fosse um personagem bom (e não digo bom no sentido de bonzinho mas bom
no sentido de bem construído) e profundo nós fãs conseguiríamos tolerar com um
pouco mais de facilidade essa obsessão do Naruto pelo Sasuke mas ele é um
personagem do anime cujo comportamento mais se assemelha ao de uma criança
birrenta, mesmo com motivações plausíveis, o que o torna o verdadeiro exemplo
de como ser um ser humano de bosta, levando uma parte considerável dos fãs de
Naruto a não gostarem dele (e outra à amá-lo. Fazer o que né?) e consequentemente
não compreenderem como o Naruto consegue, tão insistentemente, tentar salvar
uma pessoa horrível como o Sasuke.
Mas
sim, Masaki Kishimoto sabe que seu personagem precisaria de fortíssimas
motivações para tal e, na falta de um, nos dá dois motivos pelos quais o
personagem continua sua jornada em busca de Sasuke: o primeiro seria o de que
Naruto não podia abandonar seu primeiro e único melhor amigo, por causa dos
fortes laços por eles desenvolvidos durante lutas e missões e o segundo (na
minha opinião o melhor criado pelo autor) seria o de que se Naruto não
conseguiu ser forte o bastante nem para salvar seu melhor amigo da escuridão,
como ele poderia ser forte o bastante para governar uma aldeia?
E
mesmo, mesmo, meeeeeeeesmo com essas motivações muito bem
feitas que aposto que devem ter tirado umas boas horas do Kishimoto sensei,
ainda não parece suficientemente crível o fato de tamanha insistência por parte
do nosso personagem principal.
Eu
também, até então, tinha essa mesma visão de que o modo de fazer as coisas do
Naruto era simplesmente irreal, irracional, otimista e infantil demais, mas
quando parei para analisar seu comportamento penetrando fundo em seu pensamento
e em sua lógica de pensar assim como a lógica do mundo que o rodeia percebi que
ele não era tão insano assim como eu pensava.
Um Mundo Caótico
Sempre
me impressionei com a habilidade excepcional do Kishimoto-sensei em retratar a
desgraça humana em um mangá mainstream, de forma a abordar temas pesados de
maneira a conseguir dosar muito bem a proporção entre profundidade e conteúdo
interessante pro público e ele faz isso nos dando as perspectivas dos
personagens e mostrando suas feridas emocionais e físicas de um jeito que, ao
final da história você não consegue não sentir certa empatia pelo personagem e
um ódio daquele mundo e das pessoas de bosta que vivem nele (aquele desgraçado
que negou o pão pro Nagato que o diga).
E
até mesmo os roteiristas dos fillers de Naruto, considerados por muitos como os
mais chatos e enrolados dos animes também conseguem reproduzir muito bem essa
habilidade da obra original de representar o sofrimento e a desgraça, com
fillers que contém histórias ótimas à exemplo do que contou a história da
Karin, uma personagem que comecei a respeitar muito mais a partir daquele ep e
também aquele arco filler do clã com os olhos amaldiçoados que, mesmo não
gostando de vários fillers de Naruto, tive que dar o braço a torcer: Que
história triste cara!
(do lado esquerdo Chino do clã Chinoike e à direita Karin)
Aí
você leitor talvez me pergunte: Tá cara, mas como o fato do Kishimoto saber
fazer histórias tristes muito bem influencia no modo como o Naruto pensa?
E
eu te respondo: influencia em tudo!
Pense
assim: se fossem só uma ou suas histórias tristes tudo bem, mas tanto o anime
como o mangá estão cheios de personagens com histórias, no mínimo, lamentáveis
e quando você junta todas elas e forma um contexto, algo, uma razão por que
todas essas coisas horríveis acontecem com as pessoas você chega à uma
conclusão: Viver no Mundo Ninja é uma Bosta.
Guerras,
conflitos, terrorismo, corrupção, poderes quase místicos que ameaçam
constantemente a vida das pessoas e o medo ainda maior de poder ter sua vila
destruída por um monstro gigantesco com um determinado número de caudas. Todos
esses fatores cooperam para fazer do Mundo Ninja um mundo quase tão ruim quanto
o nosso só que com o agravante do chakra e das bestas de cauda só pra
potencializar tudo isso.
Mas
de que forma exatamente isso se relaciona com o modo com que o Naruto toma suas
decisões e enxerga o mundo?
Respondo-te:
nossa personalidade e modo de ver as coisas são coisas muito influenciadas pelo
contexto em que vivemos. Imagine que você é uma pessoa sonhadora, energética, e
ativa só que o mundo ao seu redor é cruel, arcaico, cheio de guerras, desesperança
e que se você tentar perseguir seus sonhos você vai, provavelmente, morrer ou
acabar pior do que começou, por que é isso que aquele mundo faz. Te restam duas
escolhas: desistir e se contentar com sua vida severina ou lutar brava e
incansavelmente por seu lugar ao Sol e por um mundo melhor para todos.
Naruto
é alguém que escolheu a segunda opção e, como alguém que luta por isso, ele
sente que se ele parar, mesmo que por um instante de lutar, o mundo o derrubará
por completo e ele perderá tudo o que construiu e não conseguirá se
reerguer, por isso, para ele, desistir não significa apenas abandonar um
amigo ou um título, mas abandonar a si próprio. E quando ele vê seu melhor
amigo se deixar guiar pelo sofrimento e a dor e, pior do que isso, se tornar um
dos agentes causadores da desgraça naquele mundo, ele simplesmente não pode
aceitar, porque ele tem que provar para o Sasuke, para o mundo e acima de tudo,
para si mesmo que a sua luta não é insana, não é vã, que não é loucura pensar
em um mundo com menos dor, com menos sofrimento, portanto se ele abandonasse
Sasuke, ele estaria admitindo que aquele mundo estava certo e que ele era o
real insano em buscar um mundo diferente daquele.
E
é essa luta interminável por mudança, essa revolução realmente que move Naruto.
E isso é tão evidente que, quando este vira Hokage percebe-se nitidamente seu
cansaço não só físico como mental. Lutar uma luta quase eterna foi algo
colossalmente extenuante para o Naruto mas que ele não se arrepende pois as
pessoas de sua vila e do mundo agora vivem melhor.
Por
isso a mensagem que Kishimoto tenta trazer com toda a sua narrativa é, além da
amizade, da honra e da bondade e que o mundo é um lugar cruel e violento mas
que a luta contra ele vale a pena mesmo com todos os ardores da batalha ainda
assim vale à pena.
Além das fronteiras da
arte
Ademais,
sinto importante também salientar que essa mensagem, essa temática esperançosa
e otimista sobre o mundo que julgo até bem recorrente em várias obras nipônicas
são reflexos diretos da influência da sociedade japonesa sobre as pessoas.
"A vida adulta, diferente do ocidente, não é vista como
um período de liberdade e emancipação pessoal, muito pelo contrário, a fase é
vista como décadas de claustro que limita as potências individuais, apaga os
sonhos e força o indivíduo a aceitar seu destino miserável." -texto
retirado do site do Otakismo (http://otakismo1.rssing.com/chan-6238764/all_p1.html) que
recomendo muito se quiserem ter uma dimensão melhor do que é a sociedade
japonesa.
Não
vou explicar aqui a dimensão da dureza que é ser adulto no Japão mas saiba que
não é fácil e é para isso que obras como Naruto e One Piece existem. Para que o
trabalhador comum, quando chegar em casa do escritório, depois de horas de
trabalho mecânico e cansativo possa se sentir um pouco melhor e mais esperançoso
quanto à sua vida medíocre e mesmo assim a taxa de suicídios no Japão ainda é
uma das mais altas do mundo pra vcs verem como são profundas as raízes do
otimismo artísticos japonês.




